A era Bolsonaro colocou o Brasil entre colchetes na América Latina. O antigo presidente não podia nem queria cooperar com os governos antiglobalistas e de esquerda, maioritariamente (não europeus) da região. Ele buscou o favor de Washington e do grande capital internacional, ao mesmo tempo que tentou manter boas relações com a China. Mas não teria importância se o Brasil tivesse relações mais estreitas com a UE. Ele quis muito de uma vez e negligenciou a geografia no processo. Entre muitas outras coisas.
Desde a mudança de governo, Luiz Inácio Lula da Silva vem tentando fazer o Brasil voltar ao caminho que alcançou até 2018. Devido ao tamanho, ao peso econômico e ao potencial do seu país, acredita o velho-novo presidente, este deve tornar-se o motor do Sul global (América). Sua visão de política externa baseia-se aproximadamente no seguinte:
1) Somente uma América Latina unida pode fazer valer seus interesses contra os Estados Unidos. Eles sabem disso na Casa Branca. Não é por acaso que nos últimos 100 anos Washington fez tudo para tornar impossível o movimento pan-americano. Também interferiram nas eleições paraguaias na primavera para manter o Partido Colorado no poder.
2) A União Europeia não é independente, mas o que é mais confuso: pensa muito mais em si mesma do que realmente vale e confunde regularmente a estação com o estilo. Para tornar tudo mais inteligente: na cimeira UE-Mercosul deste ano, as declarações da Rússia foram uma das questões mais fundamentais para Bruxelas. E nas relações comerciais, ele tentou manter o estado assimétrico anterior. No entanto, a América Latina está farta de neocolonialistas.
3) A guerra Russo-Ucraniana e o fortalecimento da China apontaram a vulnerabilidade do Ocidente. O mundo entrou numa fase de reorganização – está a tornar-se multipolar. Porém, é melhor ficar fora da batalha dos gigantes. Nesta situação, o não compromisso é a coisa mais inteligente a fazer. Você pode negociar com qualquer um, mas por que a América Latina deveria interferir em conflitos com os quais não tem nada a ver?
4) A globalização é um dado adquirido. Por enquanto não é possível ultrapassá-lo, mas é possível torná-lo mais justo e sustentável. Por exemplo, não funciona bombear materiais-primas para fora de África, levar o nosso lixo para lá, mas não damos uma contribuição significativa para o seu desenvolvimento... É por isso que o Sul global deve manter-se em pé.
5) As guerras são inimigas do desenvolvimento sustentável. Apenas algumas superpotências se beneficiam deles. No último ano e meio, por exemplo, os Estados Unidos obtiveram sérios benefícios econômicos com a revitalização do seu complexo militar-industrial e a conquista do mercado energético europeu.
A China e a Rússia também vieram bem, pois a liderança da Europa foi suficientemente estúpida para empurrá-las uma contra a outra.
No Sul global, contudo, a guerra na Ucrânia provocou uma crise na análise alimentar. E retirou dos países em desenvolvimento recursos que foram essenciais para reduzir as desigualdades sociais e lidar com a crise ecológica.
As palavras de ordem da liderança do Brasil são, portanto, paz e desenvolvimento; e quer comprometer-se a proteger os interesses desta enorme periferia. Como pode ser visto acima, não é sem interesse. Porém, quão mais simpática é essa atitude de Lula de “seja bom para o maior número de pessoas possíveis, porque assim será bom para nós” em oposição ao americano “nós cagamos no mundo porque ele é nosso de qualquer maneira”?!