domingo, 27 de abril de 2014

EUA 'pivoteiam-se', China colhe dividendos.

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Para começar, um flashback até fevereiro de 1992 - dois meses depois da dissolução da União Soviética. Primeira versão das Orientações para Planejamento da Defesa [orig. Defense Planning Guidance][1]. Adiante, foi suavizado, mas ainda serviu como base para a demência excepcionalista encarnada no "Projeto para o Novo Século Americano"; e reapareceu em toda sua glória em O Grande Tabuleiro de Xadrez do Dr. Zbig "Vamos tomar a Eurásia" Brzezinski, de 1997. 

Está tudo lá, cru, azedo e acabado:
"Nosso primeiro objetivo é impedir a reemergência de novo rival, seja no território da ex-União Soviética ou onde for, que gere ameaça da ordem que a União Soviética gerou. Isso (...) exige nos empenharmos para impedir que qualquer potência hostil venha a dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global. Essas regiões incluem a Europa Oriental, o Leste da Ásia, o território da ex-União Soviética e o sudoeste da Ásia."

Aí está tudo que é preciso saber sobre o 'pivoteamento' para a Ásia, do governo Obama, e também sobre o 'pivoteamento' para o Irã ("já que não iremos à guerra", como o secretário de Estado John Kerry deixou escapar), e sobre o 'pivoteamento' para a Guerra Fria 2.0, usando a Ucrânia como um "novo Vietnã" remix, logo ali, ao pé da porta da Rússia. E esse é também o contexto crucial da coleção de primavera Pax Americana de Obama atualmente em exibição em seletas passarelas asiáticas (Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas). 

O tour asiático de Obama começou essa semana em todo seu esplendor no afamado restaurante "Jiro"[2] em Ginza, Tóquio, ingerindo nigiri sushi, tomara que não de Fukushima nem radioativos (furo: estive lá, em 1998, quando o mestre dos sushis, Jiro Ono, não era absolutamente celebridade e os sushis não eram absolutamente atômicos). 
O anfitrião de Obama, militarista/nacionalista linha-duríssima primeiro-ministro Shinzo Abe, obviamente pagou a conta. Mas a verdadeira conta chegou depois, com o Japão curvado a todas as duras demandas dos EUA - no comércio, nos investimentos, na nova lei para empresas e de propriedade intelectual - reunidas na Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] de 12 nações, que é codinome de "o Big Business norte-americano afinal meteu o pé na porta e entrou no super protegido mercado japonês". 

Abe é freguês durão. Tem retórica pesada sobre "escapar ao regime pós-guerra", rearmar o Japão e deixar de servir como jogador de alambrado, em termos militares, para Washington na Ásia. O Pentágono, claro, tem outras ideias. Na era pós-sushi no Jiro, o que interessa a Obama é forçar o Japão a curvar-se, não só ante a TPP como, também, ante a necessidade de manter subordinado à agenda norte-americana mais ampla o movimento de armar o Japão. 

Pequim, como se poderia prever facilmente, vê tudo isso como tudo isso realmente é - como se lê em coluna publicada na rede Xinhua: ações de uma superpotência "anacrônica", "esclerosada" e "míope", que bem fará se "livrar-se das algemas históricas e filosóficas que a mantêm cativa "("Dinamismo da Ásia exige que EUA reformatem suas políticas anacrônicas", 23/4/2014, Deng Yushan, Xinhua, Pequim, em http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2014-04/23/c_133282220.htm).[3] 

O braço sudeste-asiático do pivô e desfile de Obama para apresentar a coleção Primavera[4] tem a ver, todo ele, com garantir a Malásia e Filipinas, não militarmente tão fortes quanto o Vietnã, que a Marinha dos EUA jamais será substituída como o hegemon do Mar do Sul da China; e que não se admitirá, sequer, que a China torne-se equivalente. Esse afinal é o coração da matéria da pivotagem para a Ásia, como ferramenta para conter a China: impedir que a China venha a tornar-se potência naval simultaneamente no Oceano Índico e no Pacífico Ocidental. 

O Pentágono, previsivelmente, está tomado de surto paranoico, acusando a China de fazer, não uma, mas "três guerras" contra os EUA.[5] 

O caso é que Pequim está desenvolvendo uma base subterrânea hiper-mega-super high tech para 20 submarinos nucleares na ilha Hainan, enquanto a Malásia amplia sua própria base de submarinos em Bornéu, e as Filipinas só fazem suplicar a Washington que mande mais aviões, mais navios, mais largura de banda e ciber-capacidades, como proteção para fazer o que veem como sua absoluta prioridade: procurar petróleo e gás no Mar do Oeste das Filipinas para estimular a economia. 

Me irradie com negócios, baby
A coleção Primavera não está conseguindo tirar de cenas outras pivotagens - cujos modelos mais recentes se veem na atual campanha "antiterroristas" no leste da Ucrânia, pelos mudadores-de-regimes em Kiev, e que seguem um calendário estranhíssimo. John Brennan da CIA passa por Kiev... e os mudadores-de-regime lançam seu primeiro ataque ali mesmo contra o 'terô' [terror], como dizia Bush. Vergonhoso fracasso. O vice-presidente Joe Biden aparece em Kiev... e os mudadores-de-regime, na horinha, já vêm com mais guerra ao 'terô'. 

Assim a pivotagem para a Guerra Fria 2.0 segue inabalável, com Washington trabalhando duro para erguer uma cortina de ferro entre Berlin e Moscou - impedindo que se integrem ainda mais pela Eurásia -, mediante a instigação de uma guerra civil na Ucrânia. A chanceler alemã Angela Merkel continua equilibrando-se no arame: ou alta-fidelidade atlântica, ou sua Ostpolitik - e Washington quer que ela fique bem onde está, por um fio. 

Quanto às facções de doidos-pirados-totais que circulam nas portas giratórias que conectam think-tanks-governo-imprensa-empresas em Washington, vale tudo, desde "alertar" a China para não 'tentar uma de Crimeia',[6] até pregar a favor de guerra à Síria e, até, que a OTAN entre em guerra nuclear, como se lê em coluna[7] assinada por alguém que muito apropriadamente atende pelo nome de Anne Marie Massacre [orig. Slaughter]. É o que essa senhora ensina a seus alunos excepcionalistas em Princeton. 

E como Pequim está reagindo a essa histeria toda? Simples: Pequim recolhe os dividendos. Pequim ganha com a ofensiva dos EUA que tentam separar Moscou e os mercados ocidentais, porque assim consegue melhor preço para o gás leste-siberiano que compra. Pequim ganha com o medo, na União Europeia, de perderem negócios com a Rússia, porque assim negocia acordo de livre-comércio com seu principal parceiro comercial que acontece de ser, precisamente, a União Europeia. 

E, sim, vejam o exemplo mais definitivamente claro: comparem o desfile da coleção Primavera de Obama, com coda de pivoteamento, à recente viagem por Cuba, Venezuela, Brasil e Argentina, do ministro de Relações Exteriores da China, Wang Yi. Pura bonança de negócios, focada em financiamentos bilaterais e, claro, acordos e mais acordos comerciais. 

Há de tudo no pacote: cobre peruano e chileno; soja e ferro brasileiros; apoio aos projetos sociais venezuelanos e desenvolvimento energético; apoio a Cuba, que promove maior envolvimento dos chineses na Venezuela, o que gera energia a preço subsidiado para a Venezuela. 

E, isso, num contexto em que Washington só faz repetir, excitadíssima, que a economia chinesa enfrenta terríveis dificuldades. Nada disso. A economia chinesa cresceu 7,4% ao ano, no primeiro trimestre de 2014. A demanda por ferro e cobre não diminuirá significativamente - porque a urbanização comandada por Pequim ainda não chegou, sequer, à velocidade máxima. O mesmo vale para a soja - com milhões de chineses começando a comer carne regularmente (os produtos de soja são itens cruciais para a alimentação do gado). E, claro, o apetite insaciável das empresas chinesas, que se querem diversificar por toda a América do Sul. 

Quanto à grande e crescente classe média chinesa - a caminho de se tornar membro de pleno direito da primeira economia do planeta já em 2018 - essa coleção Primavera de Obama é nada. Ele/ela podem perfeitamente ir a Hong Kong e fazer filas em Canton Road para comprar MUITO de Hermès e Prada. Na sequência, podem estrategicamente celebrar com sushi padrão Jiro (não os radioativos, à Fukushima). *****

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