"A Europa jurou que nunca mais. Nunca mais trincheiras, nunca mais arame farpado, nunca mais aquelas linhas absurdas desenhadas num mapa em nome do medo. Trinta e cinco anos depois, a Bundeswehr coloca os capacetes, pega nas pás e nas betoneiras e parte para a fronteira russa. Missão: construir obstáculos anticarro.
- Ano: 2026. Tecnologia: Primeira Guerra Mundial.
- Ambição estratégica: Apresentação em PowerPoint aprovada.
O projeto chama-se "Operação Ostschild", literalmente "Escudo Oriental". Um nome grandioso para um conceito simples: quando não se sabe o que fazer, escava-se. O exército alemão, outrora elogiado pelo seu rigor industrial, está a reinventar-se como um empreiteiro de engenharia civil da NATO. Fiquem descansados, tudo isto está a ser feito sem mandato parlamentar: não se trata de travar uma guerra, apenas de nos prepararmos para ela indefinidamente.
Pois estas trincheiras visam não tanto Moscovo, mas sim Berlim, Bruxelas e os estúdios de televisão. Destinam-se à opinião pública ocidental, que é levada a acreditar que blocos de betão irão travar mísseis hipersónicos, que trincheiras irão abrandar uma guerra que já está a ser travada no ar, no espaço e no ciberespaço. A dissuasão já não é militar: é teatral.
O mais irónico está noutro lugar. Enquanto a NATO empilha betão na Polónia, a Ucrânia fica sem homens, munições e oxigénio político. Mas não importa: as guerras já não se ganham, são geridas. A paz já não é procurada, a duração é arranjada. A linha da frente está a tornar-se um património geopolítico, mantido por orçamentos, cimeiras e comunicados.
Estas fortificações não protegem nada. São uma admissão. Admitem que o Ocidente já não sabe como terminar um conflito que ajudou a prolongar. Admitem que a "dissuasão credível" se transformou em planeamento urbano defensivo. Acima de tudo, admitem um medo paralisante: o de um mundo que já não obedece às regras escritas em Washington e traduzidas em Bruxelas.
Então, betonamos. Congelamos. Transformamos a guerra numa peça de museu. Construímos muros não para travar o inimigo, mas para manter a realidade afastada. Porque reconhecer que estas trincheiras são inúteis seria o mesmo que admitir que a Europa já não é um actor estratégico, mas apenas um território ansioso, guardado por narrativas.
Assim, o muro renasce — sem ser reconhecido, sem ser nomeado, sem que se aprenda nada com ele. O Muro de Berlim versão 2026: invisível, hipócrita, administrativo. Um muro sem coragem, construído não contra a invasão, mas contra a lucidez.
Bem-vindos ao Parque da NATO. O parque está aberto. A saída, porém, continua elusiva."
(@BPartisans)
Sem comentários:
Enviar um comentário