Sionistas : Como se constrói uma bomba nuclear sem que o mundo veja.

 

A história do programa nuclear israelita começa muito antes de Dimona aparecer nos mapas de inteligência norte-americanos. Em 1952, apenas quatro anos após a criação do Estado de Israel, David Ben-Gurion criou a Comissão de Energia Atómica de Israel. A decisão não surgiu de preocupações energéticas. Israel não possuía uma indústria capaz de justificar um grande programa nuclear civil e a produção de electricidade não era a prioridade. Para Ben-Gurion, a questão era estratégica. O novo Estado tinha uma população reduzida, território limitado e estava rodeado por países com forças armadas muito superiores em número. A conclusão a que chegou foi simples: a longo prazo, a sobrevivência de Israel não poderia depender apenas da capacidade militar convencional ou das garantias de aliados estrangeiros.
Durante os anos seguintes, Israel desenvolveu uma rede internacional de cooperação científica e tecnológica que lhe permitiu adquirir conhecimento nuclear muito acima daquilo que seria expectável para um país da sua dimensão. O primeiro passo importante ocorreu através do programa norte-americano "Atoms for Peace", que permitiu a construção do reactor de investigação de Soreq. Oficialmente, o programa israelita apresentava-se como um projecto científico semelhante aos existentes em dezenas de outros países. No entanto, paralelamente, desenvolvia-se uma segunda via muito mais ambiciosa.
A crise do Suez, em 1956, aproximou estrategicamente Israel e França. Os dois países, juntamente com o Reino Unido, participaram na operação militar contra o Egipto de Gamal Abdel Nasser. A cooperação militar estabelecida nesse período abriu caminho para um acordo muito mais importante. Em 1957, França aceitou fornecer tecnologia, assistência técnica e apoio à construção de um reactor nuclear muito mais avançado do que aquele que existia em Soreq. Nascia o projecto Dimona.
Quando as obras começaram no deserto do Negev, Israel procurou manter o máximo secretismo possível. A dimensão da instalação acabou por tornar impossível esconder a sua existência. Em 1960, aviões U-2 norte-americanos e outras fontes de inteligência identificaram o complexo. A administração Eisenhower pediu explicações. As respostas israelitas variaram ao longo do tempo. Em diferentes momentos foram apresentadas justificações relacionadas com investigação científica, desenvolvimento industrial e utilização pacífica da energia nuclear. Nenhuma delas convenceu completamente os especialistas norte-americanos.
Relatórios internos da CIA e da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos concluíram rapidamente que a escala do projecto não era compatível com os objectivos declarados. A preocupação aumentou quando ficou claro que o reactor poderia produzir plutónio em quantidades adequadas à construção de armas nucleares. A questão deixou de ser se Dimona tinha potencial militar. A questão passou a ser saber até onde esse potencial estava a ser desenvolvido.
John F. Kennedy tornou-se o principal opositor internacional do programa nuclear israelita. Entre 1961 e 1963 pressionou repetidamente o governo israelita para permitir inspeções regulares e abrangentes. A administração Kennedy receava que o aparecimento de uma potência nuclear no Médio Oriente desencadeasse uma corrida armamentista regional. Os israelitas acabaram por aceitar visitas periódicas de especialistas norte-americanos, mas os acontecimentos posteriores demonstraram que essas visitas estavam longe de corresponder àquilo que Washington imaginava.
Durante décadas, os inspectores acreditaram que tinham observado os elementos essenciais do complexo de Dimona. Investigações posteriores, documentação desclassificada e trabalhos de investigadores como Avner Cohen, William Burr e Seymour Hersh revelaram uma realidade muito diferente. O complexo incluía instalações subterrâneas destinadas ao reprocessamento de plutónio que nunca foram mostradas aos visitantes norte-americanos. Algumas áreas foram deliberadamente ocultadas. Segundo várias fontes, as equipas de inspeção foram conduzidas através de percursos cuidadosamente preparados e terão sido utilizadas salas de controlo falsas destinadas a criar uma imagem enganadora do programa. O objectivo era simples: convencer os norte-americanos de que Dimona não possuía capacidade operacional para produzir material destinado a armas nucleares.
Ao mesmo tempo que ocultava partes essenciais da instalação, Israel procurava garantir o acesso aos materiais necessários para sustentar o programa. Uma das operações mais importantes envolveu a aquisição de concentrado de urânio proveniente da Argentina. Cerca de uma centena de toneladas foram adquiridas em condições que despertaram suspeitas em Washington. Paralelamente, a Noruega forneceu água pesada, um componente fundamental para o funcionamento do reactor. Décadas mais tarde, a própria Noruega viria a questionar a forma como esse material tinha sido utilizado.
Nenhum episódio gerou tantas suspeitas quanto o caso NUMEC. Entre as décadas de 1950 e 1970 desapareceram centenas de quilogramas de urânio altamente enriquecido das instalações da Nuclear Materials and Equipment Corporation, na Pensilvânia. Investigações do FBI, da CIA e de outras agências nunca conseguiram determinar de forma conclusiva o destino desse material. Ao longo dos anos acumularam-se indícios de contactos entre responsáveis da empresa e agentes israelitas ligados ao sector nuclear e aos serviços de informações. Nenhuma prova definitiva foi apresentada. Contudo, também nunca surgiu uma explicação satisfatória para justificar o desaparecimento de uma quantidade de material suficiente para desempenhar um papel relevante num programa nuclear militar.
Em meados da década de 1960, os responsáveis norte-americanos já compreendiam que Israel se encontrava muito próximo de alcançar capacidade nuclear. A Guerra dos Seis Dias, em 1967, tornou essa realidade particularmente sensível. Estudos históricos posteriores indicam que existiram planos de contingência para uma demonstração nuclear no Sinai caso a situação militar se deteriorasse gravemente. A rápida vitória israelita tornou esses cenários irrelevantes, mas o simples facto de terem sido considerados demonstra o grau de desenvolvimento atingido pelo programa.
Em 1969 ocorreu o momento decisivo. Golda Meir reuniu-se com Richard Nixon e foi alcançado um entendimento informal que moldaria a política nuclear israelita até aos dias de hoje. Israel não realizaria testes nucleares públicos, não declararia oficialmente a posse de armas nucleares e manteria a sua política de ambiguidade estratégica. Em troca, os Estados Unidos deixariam de exercer pressão significativa sobre a questão. A partir desse momento, o programa nuclear israelita deixou de ser um problema a resolver e passou a ser uma realidade silenciosamente aceite.
A política de ambiguidade transformou-se numa das características mais peculiares da estratégia israelita. Israel nunca confirmou possuir armas nucleares. Nunca assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Nunca aceitou o regime de inspeções imposto a outros países. Apesar disso, sucessivas administrações norte-americanas e governos ocidentais passaram a tratar o assunto como uma questão encerrada.
Em 1979 surgiu outro episódio controverso. Um satélite norte-americano Vela detectou um duplo clarão sobre o Atlântico Sul, um fenómeno frequentemente associado a testes nucleares atmosféricos. Rapidamente surgiram suspeitas de uma possível cooperação entre Israel e a África do Sul do apartheid. Embora nunca tenha sido apresentada uma conclusão definitiva, numerosos especialistas continuam a considerar plausível a hipótese de um teste nuclear conjunto.
A cooperação entre Israel e a África do Sul constituiu, aliás, uma das áreas mais polémicas da história do programa nuclear israelita. Documentação revelada posteriormente demonstrou a existência de uma relação militar e tecnológica profunda entre os dois países durante os anos 70 e 80. O debate sobre o alcance exacto dessa cooperação continua aberto, mas a associação entre um Estado que se apresentava como aliado privilegiado do Ocidente e um dos regimes mais isolados do planeta permanece um dos capítulos mais desconfortáveis da Guerra Fria.
A confirmação pública mais significativa surgiu apenas em 1986. Mordechai Vanunu, técnico que trabalhara em Dimona, forneceu ao Sunday Times fotografias e informações detalhadas sobre as instalações nucleares israelitas. As imagens permitiram aos especialistas concluir que a capacidade do programa era significativamente superior à estimada anteriormente. Pouco depois da divulgação, Vanunu foi atraído para Itália por uma agente do Mossad, sequestrado, transportado para Israel e condenado a dezoito anos de prisão, grande parte dos quais cumpridos em isolamento.
Actualmente, Israel continua a manter a mesma posição adoptada há mais de meio século. Não confirma. Não nega. Estimativas independentes apontam para um arsenal de várias dezenas ou mesmo mais de uma centena de ogivas nucleares, apoiado por mísseis balísticos, aeronaves e submarinos capazes de assegurar uma capacidade de resposta mesmo após um ataque devastador. Foi neste contexto que Seymour Hersh popularizou a expressão "Samson Option", uma referência à figura bíblica de Sansão, que derruba o templo sobre si próprio e sobre os seus inimigos. A expressão descreve a ideia de que, perante uma ameaça existencial, Israel poderá recorrer a uma retaliação nuclear maciça destinada a garantir que a destruição do Estado não ocorra sem consequências catastróficas para os seus adversários.

A história do programa nuclear israelita não é apenas a história de um arsenal construído em segredo. É também a história de uma sucessão de operações clandestinas, acordos diplomáticos silenciosos, instalações ocultadas, inspeções condicionadas, materiais adquiridos por vias controversas e decisões políticas que permitiram a criação da única potência nuclear do Médio Oriente fora do regime internacional de não proliferação. Mais do que qualquer outro caso da era nuclear, demonstra que a diferença entre aquilo que é considerado aceitável e aquilo que é considerado uma ameaça raramente depende apenas das regras. Depende quase sempre de quem as está a violar.

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