domingo, 5 de janeiro de 2014

Por Marta F. Reis publicado em 4 Jan 2014 - 05:00// Portugal Conheça a teia de relações entre governantes e empresas.

Pedro Cruz, designer de 28 anos, foi eleito em 2013 um dos embaixadores do novo mundo da informação no “Corriere della Sera”: os sistemas de visualização de dados. A sua última ideia promete torná-lo conhecido cá dentro: transformou em animação a teia de relações entre governantes e empresas detalhada no livro e documentário “Donos de Portugal”. Numa semana o ecossistema, que mais parece um insectário, teve 25 mil visualizações
A uns parecem formigas, a outros baratas. Mal se começa a explorar a animação, avançam para círculos e rodeiam-nos velozmente. Cada uma é um político que integrou o governo entre 1975 e 2013. Cada círculo é uma empresa e serve esta deambulação para mostrar quem passou por onde e em que companhia. Quanto mais políticos, maior é o círculo da empresa. Quanto mais empresas, mais cheio é o bicho. Pedro Cruz o autor da animação em que é possível interagir com 119 políticos e 350 empresas portuguesas, que dá um novo formato à investigação publicada em 2010 no livro "Donos de Portugal" - adaptada a documentário em 2012 -, rejeita uma classificação taxonómica, mas admite que a "forma abstracta" que escolheu como anatomia do político se presta a essa análise e a outras: já lhe falaram de vermes e chatos. "Eu digo que são organismos vivos, com uma determinada forma abstracta que pode induzir uma série de interpretações que acho legítimas. A multiplicidade de interpretações é que é interessante", diz. O ecossistema de políticos com ligações a empresas é o 12.o trabalho que publica na internet e o que mais depressa começou a circular nas redes sociais. Publicado a 23 de Dezembro, numa semana superou as 25 mil visualizações.
Aos 28 anos, Pedro Cruz já não é um anónimo no meio das artes visuais: em 2013 foi mesmo eleito no "Corriere della Sera" um dos embaixadores deste "novo mundo" da informação, como lhe chamou o diário italiano, por transformar grandes quantidades de dados em sistemas visuais apelativos. Por cá, explica, a arte das "visualizações" - nome que prefere a infografia pois são mais dinâmicas e não tencionam comunicar um resultado, mas deixar margem para interpretações e "subnarrativas" - ainda tem pouca saída e poucos representantes.
Até aqui, o seu trabalho com mais sucesso - mais de 100 mil visualizações desde que foi publicado em 2009, fasquia que o novo ecossistema facilmente baterá - versava o declínio dos impérios marítimos no século xix e xx e valeu-lhe a primeira distinção da carreira, com a selecção para o festival de animação computacional SIGGRAPH, em Los Angeles, onde obteve o primeiro lugar numa competição para estudantes. Nos últimos anos já tinha feito alguns trabalhos mais abstractos sobre Portugal, como visualizações sobre tráfego em Lisboa, mas admite que interessou mais a pessoas com gosto pela área do que a lisboetas.
Pelo caminho passou pelo Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), onde foi ganhando gosto pelo título de designer e "explorador de visualização" em vez de engenheiro informático - esteve no laboratório de Carlo Ratti, referência na área, a par de Jer Thorp (ambos jurados na votação do jornal italiano ).
Depois de um mestrado em Visualização da Informação, está a fazer o doutoramento na Universidade de Coimbra e foi a braços com esse novo projecto que quis experimentar outros temas, que encontraram uma incubadora no projecto "Donos de Portugal". "Queria fazer visualização em assuntos que importem às pessoas, explorando tecnologias que cheguem a mais gente e apresentando a informação de forma lúdica, interactiva e que usando metáforas visuais adequadas possa envolver o interessado na exploração dessa visualização", explica.
O interesse público no tema do documentário "Donos de Portugal" foi evidente - em ano e meio de divulgação, superou meio milhão de visualizações. Como a recolha em que participaram Jorge Costa, Luís Fazenda, Francisco Louçã ou Fernando Rosas terminava em 2010, completou os percursos dos governantes até 2013 e incluiu informação de um estudo sobre as ligações políticas das empresas cotadas em bolsa, de Maria Teresa Bianchi.
O objectivo para o futuro é ir actualizando o ecossistema político-empresarial com outros nomes e ligações.
Ângelo Correia, ex-dirigente do PSD, é por agora o nome do ecossistema com mais ligações a empresas, num total de 51 - onde ocupou 55 cargos. Ex aequo em segundo lugar surgem o ex-dirigente do PSD Luís Todo Bom e o advogado Daniel Proença de Carvalho, ambos com 20 empresas. Pedro Passos Coelho passou por 11. Do actual executivo, aparecem no ecossistema Rui Machete (12 empresas) e José Pedro Aguiar-Branco (seis). Já entre as empresas retratadas, as que têm mais ligações são CGD, PT, Banco de Portugal, BCP, grupo Mello ou Champalimaud. O sistema de visualização de Pedro Cruz é interactivo, por isso quando se clica numa destas empresas os organismos com alguma ligação à instituição dirigem-se prontamente para a empresa em causa, o que permite ver como se cruzam percursos, mas também cores: os insectos social-democratas são laranja, os socialistas rosa, os centristas azuis e os independentes (poucos) cinzentos.
Nos comentários nas redes sociais não faltam elogios ao "serviço público" e também tiradas com humor. "O diagnóstico está feito. Tratamento: desinfestação", lê--se no Facebook. No doutoramento, Pedro Cruz quer explorar o potencial de retrato e caricatura nestes sistemas, mas por agora garante que a imparcialidade foi palavra de ordem, até porque deve ser essa a natureza das visualizações, a menos que se assuma o contrário. Mesmo a escolha de insectos foi neutra: bichos pelos quais não se nutre muita simpatia? "São organismos vivos", insiste Pedro Cruz, enviando um link para um vídeo no YouTube sobre cozinha gourmet com esta proteína. "Sobre insectos, há quem goste", contrapõe. Até à data, conta que as reacções foram todas boas. "Ainda estou à espera das más, Nunca mais vêm. Se calhar pode ajudar-me nisso, não?" Olhar muito para o ecossistema (em http://pmcruz.com/eco) comichão pelo menos dá.
Entrevista a Jorge Costa, autor do documentário "Donos de Portugal"
Este trabalho acrescenta alguma coisa ao vosso projecto? Vem divulgar a recolha que já tinha sido feita no “Donos de Portugal”, e que explorámos no documentário, de uma maneira mais viva e interactiva. Torna a chamar a atenção para a promiscuidade  entre políticos e o poder económico e isso é positivo.
Como se explica o interesse tão expressivo neste tema? É um sinal de que as pessoas querem saber mais sobre relações que podem  influenciar as suas escolhas democráticas e as políticas. A experiência de crise propicia esse interesse, até por poderem estar na sua origem. O documentário já teve mais de meio milhão de visualizações, é mais o visto de sempre no país.
Existe um défice na divulgação deste tipo de informação? A divulgação da informação e monitorização das empresas e responsáveis políticos tem de resultar de uma mobilização colectiva, numa atitude de vigilância e responsabilização. Claro que a imprensa e entidades fiscalizadoras têm um papel claro, mas, se os cidadãos estão adormecidos, estas teias de poder desenvolvem-se mais sub-repticiamente.
Tem outro projectos?  Estou a trabalhar num novo projecto editorial com Francisco Louçã, que será publicado em breve. O tema é o mesmo, a forma como se organiza o poder da classe política.

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